07 Junho 2017

Em primeiro lugar vem a prática, depois a teoria - Parte 2

Escrito por  Publicado em Blog

Imagine um curso sobre educação a distância em que no início da primeira aula o professor divide a sala em pequenos grupos e faz a seguinte pergunta:

“Em que situação aulas online são melhores que aulas presenciais?”

Além disso, ele enfatiza que as turmas precisam também definir o significado de “melhor”. O professor encerra a aula dizendo que os grupos têm até a próxima aula para pesquisar sobre o assunto, assistirem aulas online, perguntarem a opinião de outros professores,  tirarem suas próprias conclusões e fornecerem uma resposta bem justificada. Na aula seguinte, o professor recolhe as respostas e abre discussões sobre as diferentes opiniões trazidas pelos alunos.

 

Esse é um exemplo de como o método PBL pode ser utilizado em sala de aula.

 

Aprendizado baseado em problemas (PBL) é uma pedagogia centrada no aluno em que ele aprende por meio da experiência de resolver um problema aberto, sem respostas claras. Com isso, os alunos desenvolvem tanto a estratégia de pensamento quanto o conhecimento sobre o tema de que versa o problema.

 

Você pode estar se perguntando: “O que há de novo nesse método? Fomentar o aprendizado dos estudantes estimulando-os a responder perguntas, não é prática adotada desde sempre por professores?”. Concordo. Nada de novo, de fato. Contudo, a peculiaridade do método está no tipo de pergunta e no tipo de resposta que se espera.

 

Foi somente no final da década de 1960, que Howard Barrows, da Universidade McMaster, no Canadá, desenvolveu e organizou as ideias relacionadas à PBL e as aplicou na escola de medicina no qual era professor. Em um livro sobre o assunto que o pesquisador publicou, é assim que ele conceitua o método PBL (em tradução livre):

 

“Ao trabalhar com um problema vagamente estruturado (ill-structured), o aluno é forçado a construir o diagnóstico e a solução do problema, bem como desenvolver as habilidades de raciocínio crítico. Ele deve buscar as informações, procurar pistas, analisar e elaborar os dados disponíveis, desenvolver hipóteses e aplicar raciocínio dedutivo no problema que tem à mão. Esta abordagem é extremamente motivadora para os alunos." Barrows Tamblyn, 1980 (*)

 

O método PBL representa uma mudança de paradigma na filosofia de ensino e aprendizagem tradicional e faz o caminho inverso. Ao invés de apresentar a teoria primeiro e depois propor exercícios, o método PBL recomenda que se inicie uma aula com um problema. Os alunos, trabalhando em grupos, identificam o que já sabem, o que precisam saber e como e onde acessar novas informações que possam levá-los à resolução do problema. O papel do instrutor (chamado de tutor em PBL) é facilitar a aprendizagem, apoiando, orientando e monitorando o processo de aprendizagem.

 

A revista Forbes online, em artigo de 23 de maio de 2016 (link abaixo), relata que a escola francesa sem fins lucrativos chamada 42, voltada à formação de programadores de computadores, havia aberto uma filial em Freemont, no Vale do Silício, na Califórnia.

 

A 42 é uma escola diferente. Ela não tem professores, nem curriculum, nem notas e é gratuita.

 

A experiência francesa apresenta excelentes resultados. A formação dos milhares de estudantes, que todos anos são aceitos na escola, dura três anos. Ela funciona inteiramente no modelo do PBL (de fato, aqui poderia ser visto como “aprendizado baseado em projetos” que é uma variação do clássico PBL). O estudante progride pelos diferentes temas e estágios do curso exclusivamente por meio de problemas. A cada novo problema (em geral um projeto a ser feito) o estudante tem que basear-se no que já sabe e buscar ajuda de colegas, livros, fóruns na Internet e tem que, por si mesmo, encontrar respostas e concluir o projeto. Somente depois de apresentar sua solução a um pequeno comitê, ele receberá o problema seguinte. E assim, sucessivamente, até concluir sua formação.

 

Observe que, neste método, o estudante não apenas aprende programação de computadores, mas aprende a aprender. Torna-se autônomo, porque sabe como resolver problemas, sabe como lidar com situações totalmente desconhecidas. O profissional formado torna-se autossustentável em sua profissão,  e poderá enfrentar, sem dificuldades, as mudanças que, no futuro, certamente ocorrerão na tecnologia e na sociedade.

 

E é exatamente isso que toda escola deveria objetivar para seus estudantes.

 

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(*)http://apps.fischlerschool.nova.edu/toolbox/instructionalproducts/edd8124/fall11/1980-BarrowsTamblyn-PBL.pdf

ARTIGO DA FORBES ONLINE:
http://www.forbes.com/sites/jeanbaptiste/2016/05/23/french-billionaire-opens-free-coding-university-42-in-silicon-valley/#284cd6bc48ae

 

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