20 Setembro 2016

Seria a educação online destrutiva para nossas universidades? Não precisa ser

Escrito por  Publicado em Blog

Em uma reportagem de 17 de abril de 2016, publicada pelo jornal inglês The Guardian, o professor Laurence Brockliss, historiador da Universidade de Oxford, autor de um importante livro sobre a história de sua universidade, afirmou que acredita que Oxford e outras instituições similares deveriam oferecer cursos pela internet para alunos de graduação ou correriam riscos de serem tornadas "redundantes" nos próximos 15 anos pelos cursos virtuais. Ele conclui afirmando que é apenas “uma questão de tempo" antes que o impacto da tecnologia digital comece a transformar definitivamente a maneira como funciona o ensino superior.

  

  

O interessante nessa notícia é quem faz a afirmação é um historiador. Um estudioso da mais antiga universidade inglesa que, por cerca de um mil anos, sobreviveu a muitas grandes crises e guerras europeias. E, segundo Mr. Brockliss, corre o risco de não sobreviver à revolução digital.

Outro destaque relevante neste contexto se deu há 12 anos, em 2004, quando a Escola de Administração da Universidade de Harvard colocou essa mesma questão para seus professores. Ela perguntou sobre se deveria, ou não, adotar o modelo de educação a distância que começava a ganhar relevância nos Estados Unidos. Dois ilustres professores, de renome internacional e especialistas em questões de estratégia corporativa, se manifestaram com opiniões opostas, conforme relatou o jornal The New York Times.

Enquanto o Professor Michael Porter defendia a ideia de que a escola não deveria sair do seu modelo tradicional e continuar a superar seus competidores apoiado em seus valores e suas forças, Clayton Christensen opunha-se a ele com a proposta de que Harvard deveria criar uma nova escola de administração, no modelo de educação a distância, e canibalizar seu tradicional negócio. Aparentemente Harvard seguiu os conselhos de Porter, apesar do lançamento da plataforma de educação online HBX, que tem um papel secundário nos programas educacionais da escola.

Essa pergunta agora se recoloca no Brasil após doze anos.

Como deveria uma universidade brasileira reagir às mudanças impostas pela tecnologia digital que, antes de mais nada é uma importante questão para sobrevivência de longo prazo?   

Seria possível a universidade brasileira criar uma grade completa de cursos a distância? Sabe-se que o MEC limita o adoção de cursos puramente online por nossas escolas, exceções sendo cursos complementares e avulsos. Mas essa regra não interfere na criação de cursos híbridos, com aulas presenciais integradas a atividades online de professores e estudantes. A universidade pode então, respeitando as normas do Ministério da Educação, criar grades curriculares com cursos puramente online e cursos híbridos.

Mas eu preciso convencê-los quanto a minha crença de que esse é um caminho que traz vantagens competitivas às instituições que o adotam, porque melhora a qualidade do ensino e reduz os custos para as escolas e, por consequência, para os alunos.

Para isso, seria interessante comparar os diferentes modelos de cursos hoje em prática em algumas escolas: modelo presencial, modelo online puro e modelo híbrido (presencial com apoio online).

1 - Aulas presenciais

As aulas presenciais são a forma mais tradicional, na qual os professores e os alunos estão habituados, e já sabem como funciona. Quando o professor é talentoso e dedicado esse modelo apresenta grandes resultados, principalmente em turmas pequenas. Quem não se lembra de professores que nos inspiraram pelo resto de nossas vidas? Porém, para as escolas, as turmas pequenas trazem custos elevados.

No formato presencial, o professor consegue aferir o desempenho e o desenvolvimento dos alunos e estes conseguem apoio do professor para superar suas dificuldades, mas ainda em turmas pequenas. E não deixemos de considerar que o ambiente colaborativo que naturalmente se forma numa comunidade de estudantes, nas salas de aula, pode ser um importante fator de motivação e de bom desempenho dos alunos. No lado negativo é que o processo presencial, síncrono, dificulta que os alunos possam seguir o curso em seu ritmo, sem falar que restringe o acesso ao curso a alunos que residem próximos à escola.

Talvez aqui, o maior limitador do crescimento das escolas seja a quantidade de potenciais alunos existente na comunidade nas proximidades da escola e a formação de novos professores.

2 – Cursos puramente online

Cursos online são conhecidos como de educação a distância. A forma mais antiga, chamada de e-learning, se desenvolveu no Brasil desde a década de 1090, num formato de curso muito superficial, muito simplório, com níveis de aprendizagem reconhecidamente baixos. Com o evoluir da tecnologia tem sido possível incorporar conteúdo em muitos formatos (vídeos, animações, simulações, exercícios em grupo), além de mecanismos colaborativos (fórum, wiki, salas de chat) para cursos online oferecidos para turmas de alunos. Dessa forma a tecnologia tem potencializado os cursos a distância elevando o nível de aprendizagem dos estudantes.

Os cursos online têm a grande vantagem de oferecer a conveniência de horários e de locais de estudo e a flexibilidade de poder ajustar-se ao ritmo e ao estilo de cada estudante. Outro aspecto relevante é que o estudante pode repassar as lições tantas vezes quanto necessitar. Outro importante ponto positivo é que o processo online pode oferecer a estudantes, professores e educadores informações instantâneas quanto ao desempenho que cada aluno, de cada professor e de cada curso. Principalmente para educação de adultos, que apresentam maior autonomia do esforço de aprendizagem, o método online tem apresentado resultados surpreendentemente bons.

E existem alguns pontos que não podem ser ignorados. Dependendo de cada estudante, principalmente dependendo de sua familiaridade com redes sociais, o processo online pode estimular ou inibir o envolvimento de cada um. Além disso estudantes mais maduros, mais organizados, se saem melhor em processos a distância. E não nos esqueçamos de que o sucesso dos programas online depende do estudante dispor de equipamentos e canais de comunicação de boa qualidade – principalmente em momentos de muita tensão, como por exemplo em provas e em conversas online com professor.

Do lado negativo, não se pode ignorar que os programas online requerem um grande esforço de preparação por parte de professores e autores. E ainda, o trabalho de concepção do conteúdo e o planejamento das atividades online exige um especial cuidado, porque a qualidade final do curso é definida em sua fase de projeto. Esse esforço poderá ser recompensado caso esses cursos sejam ofertados a muito alunos, , porque prepara-se uma vez e oferta-se muitas.

3- Cursos híbridos

Se bem feitos os cursos no formato híbrido podem desfrutar do melhor dos dois mundos. Em geral os pontos negativos do processo em aulas presenciais podem ser atenuados pelo processo online, e vice versa. Por exemplo a dependência da qualidade de professores muito talentosos pode ser reduzida com o sistema online apoiando e orientando os professores em suas atividades. Inúmeros estudos comparativos da eficácia do formato híbrido em relação ao online puro e com presencial puro mostram que o formato híbrido apresenta desempenho melhor que os demais. Um desses estudos foi feito pelo Departamento de Educação do Governo dos Estados Unidos, que sintetizou suas conclusões com a frase: “Nossa meta-análise constatou que, em média, os estudantes em condições de aprendizagem online desempenharam modestamente melhor do que aqueles que receberam instruções presencialmente.”.

A tecnologia já está madura, os processos já estão testados e ajustados, e já existem profissionais de educação familiarizados com a técnica. O primeiro passo é começar a planejar a revisão e transformação da grade curricular, desenvolver conteúdo, equipar a escola e treinar o professor. Não é pouco, mas é factível.

Edson Fregni, sócio fundador da Sciere Tecnologias Educacionais e professor da Escola Politécnica da USP 

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